Voltando à presencialidade no IETF 114

06/09/2022

Por Carlos Martínez – CTO do LACNIC

A volta às reuniões presenciais do IETF (Grupo de trabalho de engenharia da Internet) continuou durante o último mês de julho na Filadélfia (EUA) com cerca de 1300 participantes cadastrados, entre presenciais e remotos.

Foi um evento em que sentimos o calor humano de ver os rostos uns dos outros, e conseguimos recuperar encontros casuais que não podiam ser tidos em eventos virtuais. Voltamos a compartilhar desenhos, diagramas e palestras sobre diferentes aspectos da arquitetura da Internet em grupos em torno de pequenas mesas do lobby e bar do hotel, ou na sala do evento.

Novidades técnicas. Das sessões do Internet Research Task Force (IRTF), um grupo irmão do IETF que se concentra em pesquisas de longo prazo, fiquei impressionado com a ênfase na aplicação de técnicas de aprendizado automático (machine learning) para problemas de redes. Duas apresentações da Universidade de Stanford destacaram trabalhos de pesquisa sobre o uso de aprendizado automático para automatizar o gerenciamento do tráfego na Internet.

Por meio dessas técnicas seria possível identificar aplicações que estão rodando na rede, tratá-las de forma diferenciada e fornecer-lhes largura de banda e outros parâmetros de qualidade de serviço de acordo com as características de cada uma.

Em relação ao mundo da Internet das Coisas, achei muito interessante o trabalho Performant TCP for Low-Power Wireless Networks em que mostram que implementando uma série de otimizações e assumindo certos compromissos, é possível usar o TCP em famílias de dispositivos com recursos muito limitados. Isso abre portas para determinados aplicativos que não são mapeados sobre UDP e evita a necessidade de “reinventar” certas funcionalidades do TCP, como a recuperação de pacotes perdidos em cada protocolo de aplicação.

Nas sessões próprias do IETF, gostaria de destacar o trabalho realizado pelo grupo de trabalho v6ops. O grupo v6ops desenvolve diretrizes para a implementação e operação de redes IPv6 novas e existentes.

Um dos drafts apresentados trata do uso correto dos ULA (endereços locais únicos, por sua sigla em inglês) e da aplicabilidade dos cabeçalhos opcionais do IPv6. Os ULA são o equivalente no IPv6 aos endereços privados do IPv4, mas apesar de terem sido especificados há muito tempo, certos aspectos de sua aplicação operacional permanecem abertos ao debate. O documento “Unintended Operational Issues with ULAsdiscute alguns aspectos que continuam abertos com eles.

Há um interesse renovado em entender melhor o comportamento dos cabeçalhos opcionais do IPv6. Medições de alguns anos atrás mostravam uma taxa de queda inaceitavelmente alta para pacotes com cabeçalhos opcionais. Agora, outro grupo de pesquisadores está repetindo essas medições para comparar a realidade atual com a situação passada. Esse projeto foi apresentado sob o nome de JAMES. Estarei aguardando para ver os resultados que alcançam.

Outro aspecto positivo das sessões do IETF acabou por ser o trabalho sobre validação de origem (Using BGP updates for Source address validation). Esse é um dos grandes problemas não resolvidos para evitar que os pacotes sejam injetados e, assim, sofram ataques de denegação de serviços. As técnicas existentes hoje não cobrem todos os casos ou não os dimensionam.

Por isso achei um trabalho chamado BAR-SAV, sobre como usar o RPKI para fazer validação de origem, muito inovador e promissor. Consiste em usar as informações que estão nos ROA e introduzir novas mensagens do protocolo BGP.

O documento divulgado no último IETF avança no desenho de filtros SAV por meio de um método que faz uso de mensagens de atualização BGP, Autorização de Provedor de Sistema Autônomo (ASPA) e Autorização de Origem de Rota (ROA). O BAR-SAV pode ser usado por operadoras de rede para obter filtros SAV mais robustos e, assim, melhorar a resiliência da rede.

Para finalizar, uma reflexão. Na minha opinião, a Internet será sempre um “work in progress”. Por sua própria natureza, a Internet precisa evoluir de forma contínua. Portanto, foi reconfortante para mim ver que, após dois anos de longo distanciamento, a comunidade do IETF continua tão vibrante como sempre, e pronta para enfrentar os desafios de continuar construindo a Internet.

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